por Tody Macedo

Havia crescido como uma Cegnoman e educada como uma Brindowffs. Era uma filha que causava inveja a muitas mães. Os cabelos longos causavam admiração dos homens da vila que ficavam tentando flertar a donzela. Já era mulher, toda lua nova sofria como mulher, um dia quando foi ao mercado por um pedido de sua mãe um homem a desrespeitou, e como ela conhecia a arte das armas, com um bastão pôs o homem para correr. Aquilo foi motivo de chacota para o infeliz durante um outono inteiro.

Faltava um dia para a lua cheia, era zegad. Suas aulas já haviam terminado fazia somente uma lua nova. Seus pais não estariam mais presentes nos zegads, mas ela decidiu continuar com as aprendizagens mesmo na solidão, dessa vez perto do lago e pela primeira vez estava ali sem os seus pais.

O desenho da estrela de seis pontas estava sempre desenhado e os símbolos sempre eram levados nos dias dos rituais. Mas este ritual era diferente, era o seu rito.

– Onde está o sal?

– Quem está aí? – perguntou Shellia.

– Você precisa de Sal. Busque e faça um círculo em volta da estrela.

O lugar estava deserto. Imaginou estar louca, mas fez o que a voz ordenava.

– Reserve a ponta norte. Na ponta noroeste você irá colocar o símbolo da água, na ponta oposta o fogo, na ponta sudeste o símbolo do ar e na ponta oposta terra. Na ponta sul desenhe o símbolo do espírito e você ficara na ponta reservada.

E assim ela fez. Tinha dúvidas se aquela voz era sua intuição ou era sua loucura, mas só se sabe que ela seguiu sua ordem. Após entoar o hino a Serminy ela entoou o hino a Malk. Antes que terminasse o hino ouviu a voz dizer:

– Deo incepit in nobis, ipse te perficiat.

– Qui fecit coelum, et terram

“Ex hoc nunc

Dominus vobiscum

Et cum spiritu tuo. – Shellia respondeu.

– Requiem, domine, et lux perpetua luceat eis. Sua aula acabou. Vá dormir. – disse a voz.

Shellia estava tremendo e a respiração ofegante. Chegando a casa tentou falar com seus pais, mas estes estavam no leito dormindo. Aquela foi a experiência mais marcante de sua vida até aquele dia. Ela estava falando uma língua que não conhecia e ouvia uma voz que vinha do sobrenatural.

Ao fechar a porta de seu aposento fez menção de trocar as vestes pela de dormir. Ao ver seu corpo nu reparou como seu corpo havia mudado em todas aquelas luas que passara tendo aulas com seus pais. Ela já tinha beijado um homem num lugar escondido, mas seu corpo era intocado. Não lhe faltava desejo nem oportunidade, só que ela fora educada para esperar o rito de união. Ela tinha medo de se tocar, pois não sabia o que poderia acontecer. Uma vez presenciou Sávia se tocando durante o banho, mas isso foi antes de se tornar mulher. Quando começou a sentir as dores de mulher Sávia a provocou fazendo um monte de perguntas sobre o assunto, mas ela sabia muito bem como se desviar dos questionamentos de Sávia. Porém naquela noite ela resolvera tentar quebrar o próprio tabu. A luz da lua entrava pela janela e levemente lhe tocava o corpo que suavemente era acariciado com suas próprias mãos. Ao tocar com doçura seus seios houve um arrepio desde a nuca até a ponta dos pés. O medo voltou e ela foi dormir, dessa vez nua.

Logo que o sol apareceu, ela pôs suas veste e foi ajudar sua mãe com os afazeres da cozinha. Isso era algo que Shellia sempre fazia. E logo pela manhã sempre estava a sós com sua mãe.

– Tenho que lhe contar um segredo! – sussurrou para sua mãe que lhe retribuiu com um leve sorriso. Continuou – ontem eu escutei uma voz quando eu fui fazer o rito. Eu comecei a falar uma língua estranha… – falava baixinho.

– Aquela é uma língua proibida.

– Como assim? – interrompeu sua mãe. – Como você sabe?

– Você é realmente filha de Serminy. Está no seu sangue o dom de sacerdotisa e guerreira.

– Eu não estou entendendo.

– Sente-se aqui que eu vou lhe contar. – geralmente no dia após o zegad era sem movimentos tanto na vila quanto no castelo, logo elas podiam conversar ali sem se preocupar com um possível incômodo. – Eu sou sacerdotisa de Serminy, como a minha mãe também foi. Mas em nosso clã somos iniciadas na arte cedo e só podemos realizar os rituais com o clã se mostrarmos a fertilidade. Eu e seu pai já nos cansamos de te falar que eu nunca fui fértil e que Serminy nos deu você de presente. Fiquei impedida de cultuar com o clã durante vários verões. Depois da sua chegada eu já tinha me conformada e acostumada a estar sempre com Xermor. Achei melhor continuar com os ritos perto do lago.

“Quando minha mãe iniciou-me eu também estranhei aquilo tudo, juro que tive medo e dificuldades de entender que vozes eram aquelas. Por isso pedi a Xermor que somente um de nós dois falássemos com você na noite passada, justamente para que você não se desesperasse como aconteceu comigo e com ele. Nós temos o dom de nos comunicar uns com os outros usando só os pensamentos.

Shellia estava com um olhar que dizia não acreditar em tudo o que ouvia.

– Mas, e… e, e, e…

– A língua estranha? É uma língua que somente quem é filho ou filha de Serminy é capaz de falar…

Sua mãe continuou explicando tudo para que ela ficasse ciente do que se passava com naquele momento. Aquilo que estava acontecendo era tudo muito novo e lhe causava desconforto e medo.

Uma coisa sua mãe sabia, ela chegou no silêncio da noite, era sacerdotisa de Serminy e sua partida estava chegando. Havia esperança de que não fosse uma partida sem despedidas.