por Tody Macedo

Shellia quando se encontrava sozinha entoava os hinos e recitava os versos, conforme crescia em estatura crescia na arte que sua mãe lhe ensinava. Tinha muita força interior, como se fosse filha de sangue de Miranda e Xermor, ela ainda possuía a mesma habilidade de manejar o seu símbolo: o fogo.

– Chegou a hora de você aprender algumas coisinhas. – disse Xermor a sua filha.

– Vai me ensinar a usar outro tipo de arma papai?

– Sim e não. – disse sorrindo para a doce adolescente. – De hoje em diante ao dia você irá brincar. Me encontre aqui na academia depois que o sol se pôr.

Ela saiu correndo em disparada pra brincar com Minplar e as outras crianças da vila. Apesar de ser a única criança de cabelos brancos ninguém ousava proferir nenhuma palavra de preconceito, muito menos brincava com a cor de seu cabelo que ainda continuava branco feito neve. Shellia costumava dividir seu tempo entre as brincadeiras, o estudo das armas e o estudo das letras. Sabia ler e escrever como os filhos do conde. Sua mãe a pegou recitando versos assim:

“No ar deu-me o espírito para andar

Pelos quatro cantos do mundo

Guia-me pelo coração de criança

Pela tua água torna-me fecundo

És Mãe de seu pai

És Filha de seu filho

Esposa eterna sem morte

No fogo se renda o fulgor

Queime forte e ilumine o caminho

Aqueça no abraço da Deusa Serminy

Brote da terra animoso vinho”

Muitas vezes recitava versos para os deuses, mas tinha um afeto maior por Serminy. Ela só não aprendeu a arte da música, dizia que não levava jeito e sempre que alguém tentava lhe ensinar mais que depressa dava uma desculpa para sair de perto. Definitivamente ela não queria aquilo para sua vida. Mas as armas lhe seduziram até o pôr-do-sol daquele dia de primavera, quando seus pais começaram como suas novas aulas.

Quando ela chegou à academia de armas havia somente uma mesa com lâmpadas pra iluminar o local e uma bacia com água. Nada mais!

– Mas por que só isso?

– Hoje você vai aprender algo que nem todos na vila conhecem. Queremos que você aprenda como eu aprendi com minha mãe, que aprendeu com a mãe e assim por diante. – disse Miranda. – Eu vejo você todos os dias recitando versos e entoando hinos a Serminy.

– Não sei por que, mas eu sinto que ela está sempre comigo.

Miranda e Xermor se olharam pasmos. Se eles não tivessem visto aquela criança no cesto até acreditariam que era sua filha. Mas não, ela chegara num cesto enrolada em panos de clã estrangeiro. Mas no clã dos Cegnoman a afinidade a Serminy era predominante e vez ou outra a deusa escolhia uma criança para ser uma sacerdotisa esposa de Malk. O casal temia que fosse ela, pois a responsabilidade dobraria tanto para Shellia quanto para eles que eram pais. Mas o medo maior era outro: toda aprendiz de sacerdotisa tinha que passar por rituais e um deles consistia em ter uma vida ermitã por dois invernos. E se fosse verdade que Shellia era escolhida pela deusa os pais tinham que apressar em seus ensinamentos ocultos.

– Por que a noite? – reclamou Shellia.

– Onde está a luz?

– Na lâmpada e nos astros. Está escuro aqui. – retrucou.

– A maior luz está escondida.

“De dentro dos olhos faceiros

Brilho de safira que candeia

Fogo de Malk inflama ligeiro

Desperta o espírito da aldeia

Paixão dos astros

Lume no coração

Faça inflamar agora

Calor em sedução” – recitaram o casal o hino a Malk, deus da guerra, esposo de Serminy. As lâmpadas ficaram com brilho mais forte e toda academia estava iluminada. Os olhos de Shellia brilhavam com o feito de seus pais. Tinha algo neles que ela não conhecia e a partir daquele dia aquele era um segredo que seria dela também.

As aulas eram sempre no dia de zegad que ocorria com muita freqüência. Ela aprendeu a dominar a arte como seus pais.  O auge da magia estava chegando, a Magia da Guerra. Todas as sacerdotisas dominavam, mas nenhuma delas usava. Miranda estava feliz com a filha que tinha.