por Tody Macedo

No dia de lua cheia a família do conde se recolheu no pôr-do-sol, por respeito ao casal todos da casa estavam proibidos de sair no jardim e naquele dia o conde reforçou a ordem de ninguém sair de seus aposentos até o raiar do dia. Miranda já havia preparado o local para o rito. Havia desenhado no chão uma estrela onde uma das pontas apontava para o norte e outra ponta para o sul. O local era ao lado do lago, como sempre, e este ficava a leste da estrela como símbolo da água. No lado oeste a grama foi arrancada em formato de círculo para que a terra ficasse exposta. Terra é o símbolo do oeste. Para o norte e sul deixou vazio. Depois de tudo preparado Xermor trouxe a criança, uma menina que esbanjava saúde. Miranda ajoelhou-se na ponta norte da estrela, Xermor na ponta sul e a criança no centro da estrela de seis pontas.

O casal cantou o hino a Serminy e recitou o poema dos deuses, o único instrumento usado foi uma harpa de dez cordas. Foram ofertados perfumes e flores de zanif. Ungiram a criança com a essência das flores e a lua banhava os três com sua luz enquanto pendia do ponto mais alto do cardeal. A brisa tocava as árvores e como sinfonia dava o toque pra mais uma canção. O lago refletindo a luz da lua mostrava que os deuses estavam de agrado com tudo o que acontecia. O casal permaneceu alguns instantes em silêncio, quando de repente a criança sorriu.

– Shellia! – sussurraram os dois.

Queimaram incenso e dançaram. Terminando o rito se recolheram em silêncio. Faltavam poucos instantes para o sol raiar. Miranda foi direto para a cozinha preparar a refeição de desjejum. Xermor foi descansar, pois seu trabalho podia ser tardio.

A família do conde levantou junto com o sol e foram direto para a cozinha saudar a nova mãe. Cobriram-na de beijos e não paravam de cantar e dançar, e tomando a criança em seus braços para dar um banho nela.

– Qual é o nome que a deusa  Serminy escolheu para ela?

– Shellia. O nome dela é Shellia meu Senhor.

– Pois bem. Agora Shellia tem pais e um monte de gente pra cuidar dela. Vou deixá-la com Minplar.

Shellia e Minplar cresceram juntos e sempre estavam participando das mesmas brincadeiras. O conde de Brindowffs a tratava como se fosse sua filha cobrindo-a de carinho e educando como um de seus filhos. No 7º verão Minplar começou com a arte das espadas e como Shellia não o largava estava sempre ao seu lado nas aulas. Aprendeu a manejar arco e flechas e a espada. Como Xermor era pagem sempre estava de olho na filha para que nada pudesse lhe acontecer, mas nunca impediu que sua filha aprendesse. Algumas vezes até ensinou alguns golpes a ela.

Miranda e Xermor por sua vez não participavam dos cultos e preferiam fazê-los no jardim do castelo. Porem havia sete verões que o casal estava acompanhado em seus cultos.

– Xermor… Xermor… você viu Shellia? Estou a procurando já faz tempo.

– Ela deve estar brincando com Minplar.

– Eis o problema. Os dois sumiram. Ajude-me a procurá-los.

Logo mobilizaram alguns grupos da vila para procurar os dois pequenos. Se organizaram e alguns grupos foram procurar nos porões das casas, outros no bosque e outros nas estradas.

– Minplar, você tem certeza que vai dar certo?

– Claro que vai. Sou o mestre das armadilhas para pegar coelhos. Agora vamos ficar em silêncio, ouvi algo. – disse sussurrando.

Os dois permaneciam imóveis no alto da árvore olhando para o meio do bosque. Minplar olhou para a pequena e fez sinal de silêncio apontando para a criaturinha que brotava da relva. Ali estava o peludinho cinza de orelhas compridas.

“Agora só falta ele entrar na minha armadilha.” – pensou o pequeno conde.

Ouviram um barulho de como que o animalzinho estivesse caído na armadilha e desceram por uma escada de corda que puseram ali. Correram o mais rápido que puderam, quando deram de cara com um senhor de cabelos grisalhos pegando o coelho.

– Ei Senhor, este coelho é meu. Dê-me para que eu possa levar para minha casa ou arque com as conseqüências. – disse Minplar.

– Xermor. – gritou o velho. – achei os dois. – disse em meio a gargalhadas.

– O que está havendo aqui? – perguntou Xermor. – Minha filha, você quer matar a mim e a sua mãe? Por onde andou?

Ela apontou para o coelho na mão do velho. E Xermor acabou dando gargalhadas do que acontecera. Xermor pôs Shellia em seus ombros e o velho levou Minplar. Apesar de ser uma menina, ela era destemida e tal coisa assustava seu pai. Como não estavam longe de casa houve somente um castigo de não sair de casa de um zegad a outro. E isso foi o bastante para o choro dos dois durante dois dias. Por ordem do conde todos da casa repreenderam as duas crianças para que não sumissem sem dizer aonde iam. Eles estavam crescendo, mas ainda eram indefesos.